
Um dos direitos fundamentais que estruturam nossa democracia está sob ataques na machosfera brasileira: o sufrágio universal. Analisamos 126 publicações que mencionam o voto feminino em 18 comunidades abertas do Telegram, entre dezembro de 2020 e julho de 2026, e observamos que a esmagadora maioria delas se posiciona explicitamente contra o voto feminino. Nessas comunidades não se discute se as mulheres deveriam votar: afirma-se que não deveriam. Duas camadas sustentam esses discursos. A primeira, apresentada como justificativa, é a essencialização das mulheres, que lhes atribui características supostamente biológicas, ora paternalistas, como o excesso de sentimento, ora abertamente hostis, como o egocentrismo e a psicopatia, das quais se deduziria uma inaptidão para o juízo político. A segunda, enunciada sem constrangimento, é o aspecto político: sustenta-se que mulheres votam à esquerda e que por isso não deveriam votar, chegando-se a afirmar que “é através do voto feminino que o comunismo próspera”. Essa segunda camada revela o critério efetivamente em operação, tanto que as comunidades atacam como traidores os políticos de direita que cortejam o eleitorado feminino.
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