
Esta apresentação propõe a teoria da complexidade como instrumento hermenêutico para a análise de fenómenos político-sociais contemporâneos, articulando a filosofia do processo de Alfred North Whitehead com o pensamento complexo de Edgar Morin. Partindo da crítica processualista à metafísica da substância — e da sua substituição pela primazia do devir, da relacionalidade e da concrescência —, o argumento desenvolve-se em torno de cinco eixos ontológicos do processo: o primado do processo sobre a coisa, a realidade como devir e mutação incessante, a relacionalidade e concrescência, a criatividade e emergência, e a equiprimordialidade entre processo e sujeito. A partir do tetragrama cósmico de Morin (ordem, desordem, interação, organização) e dos seus princípios de recursividade organizacional, dialógica e auto-eco-organização, aplica-se este quadro à teoria da ação não-violenta de Gene Sharp, interpretando o poder político como processo recursivo cuja estabilidade depende do consentimento ativo dos sistemas sociais que o constituem. A apresentação introduz ainda o conceito de estaticídio — a destruição entrópica instrumentalizada de um Estado por forças externas — como caso-limite em que a injeção de desordem impede a reorganização complexa do sistema político, configurando não uma transição democrática mas uma dispersão entrópica irreversível. Conclui-se com duas questões abertas à discussão: se um Estado autoritário pode ser mais legítimo do que uma democracia produtora de ignorância organizada, e se o ideal kantiano de paz perpétua permanece filosoficamente defensável num mundo estruturado por dinâmicas de estaticídio.
