
O presente trabalho investiga a reconfiguração do trabalho sexual na era digital, tomando como referência a ascensão das plataformas digitais e sua articulação com a racionalidade neoliberal. Historicamente marcado pelo estigma e pela marginalização, o trabalho sexual contemporâneo passa a ser reorganizado sob a lógica da plataformização, fenômeno que desloca os riscos e a gestão das vulnerabilidades para as trabalhadoras, ao mesmo tempo em que promove um discurso ilusório de autonomia e empoderamento. A problemática central reside em compreender de que modo a discursividade neoliberal, norteada por ideias como meritocracia, autogestão e empreendedorismo de si, opera subjetivamente na naturalização do sofrimento psíquico de mulheres em situação de informalidade laboral. De modo específico, indaga-se como a plataformização do trabalho sexual no Brasil reconfigura as formas de exploração dos corpos, as condições de vulnerabilidade e as consequências subjetivas para as trabalhadoras em um cenário de ambiguidades legais e de estetização da atividade. Trata-se de uma investigação psicanalítica, sustentada nos referenciais freudianos, articulada ao campo da teoria crítica. A psicanálise possibilita compreender os efeitos da intensificação do capitalismo financeiro na constituição subjetiva e nos modos de sofrimento humano. Nessa perspectiva, o sintoma é lido como resposta singular ao excesso de exigências contemporâneas, marcadas pela internalização de ideais de performance, pela mercantilização do afeto e dos corpos e pela transformação da intimidade em capital simbólico e econômico. O modelo de negócio das plataformas digitais reproduz e intensifica os mecanismos de uberização e precarização do trabalho, exigindo disponibilidade constante, produção incessante de conteúdo e marketing pessoal. A promessa de autonomia revela-se contraditória, pois se funda em um regime de autoexploração em que a subjetividade da trabalhadora é mobilizada como recurso produtivo. A contradição entre cuidado e mercadoria é central: a exibição de afeto e intimidade é demandada como serviço, ao mesmo tempo em que é sistematicamente desvalorizada por salários baixos, pirataria de conteúdo e ausência de garantias legais. O capitalismo financeiro invade a esfera íntima, transformando a autoestima, a imagem corpórea e o desejo de reconhecimento em instrumentos de controle e sujeição. A figura do empreendedor de si é, nessa dinâmica, um imperativo subjetivo, impondo às trabalhadoras a responsabilidade individual por seu próprio sucesso ou fracasso. Essa dinâmica produz sofrimento psíquico, ao mesmo tempo em que mantém a exploração invisibilizada sob a roupagem da liberdade e do empoderamento. Conclui-se que a plataformização do trabalho sexual configura um campo paradigmático para pensar as articulações entre corpo, desejo e política sob o capitalismo financeiro. Ao explorar como a lógica mercantil captura a dimensão afetiva e íntima do sujeito, este estudo contribui para a compreensão crítica das novas modalidades de precarização e para a elaboração de estratégias de resistência e cuidado. A psicanálise, nesse contexto, oferece uma via privilegiada de escuta e análise, capaz de evidenciar as formas sutis de sofrimento e abrir possibilidades de subjetivação que escapem à lógica de mercado. Eixo 3 — Corpo e Trabalho In: Anais do VI Congresso Internacional Corpos em Movimento 2025. Revista Periphérica / CPAPEC, 2025.
psicanálise, Corpo e Trabalho, Neoliberalismo, subjetivação, Corpos em Movimento 2025, plataformização do trabalho
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