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"Quando um doente nosso morre, um doente do foro oncológico, é como se se partisse qualquer coisa dentro de nós, parece ser um bocadinho de nós que morre. Sabe porquê? Lutámos tanto por ele, fizemos-lhe tanta coisa, demos-lhe o melhor da nossa vida, do nosso saber e depois quando ele morre (silêncio) há qualquer coisa que se quebra em nós!" (Ent./ 28 Médica de Ginecologia.) Frequentemente fomos questionados (com estranheza) por amigos, colegas e professores, da razão de ser deste tema, que gira à volta da problemática dos técnicos de saúde face ao doente terminal. "Ora, é evidente que o adulto tem que construir a sua própria formação com base num balanço de vida (perspectiva retrospectiva e não apenas numa óptica de desenvolvimento futuro" Nóvoa (1988). Ao fazer esse balanço retrospectivo e também, numa óptica de desenvolvimento futuro, recordamos como nasceu este estudo: Como Técnica de Diagnóstico e Terapêutica (TDT) dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) passaram-se quase dezasseis anos, em que o contacto com os doentes foi reduzido praticamente a um número escrito numa "placa de Petri", ou num "tubo de ensaio". Em 1989, por razões de prosseguimento de carreira, fizemos o "Curso Complementar de Ensino e Administração" e coube-nos estagiar no Laboratório de Patologia Clínica, do Centro Oncológico de Coimbra (COC). Tivemos então, sob o ponto de vista profissional, a primeira experiência com doentes do foro oncológico e em estado terminal. Fazia parte do estágio acompanhar os colegas do Laboratório de Análises Clínicas nas "colheitas" de sangue e outros produtos, que diariamente se fazem aos doentes acamados, nas diferentes enfermarias do COC. O contacto com estes doentes e reconhecimento do seu sofrimento e dos seus problemas e da falta dum apoio psicológico, que os ajudasse a fazer face a esta realidade, levou-nos a uma reflexão e posterior remodelação, sobre a actividade de formadora, que paralelamente também desempenhamos nos HUC. Para além disto, havia ainda a marca profunda duma "vivência", durante a infância, devido a uma doença deste tipo, num dos membros da nossa família. Tudo isto e a obrigatoriedade de apresentar um trabalho, com o resultado do já referido estágio, levou-nos a interrogar os colegas sobre os problemas inerentes à sua profissão. A maior parte deles referiu como problemas principais : — A carência de formação específica para compreender e cuidar destes doentes; — a excessiva quantidade de doentes que têm de puncionar no mesmo dia e que não lhes dá tempo para uma relação profissional mais humanizada; — a falta de apoio psicológico, dado que frequentemente se sentem deprimidos e desmotivados pelo contacto sistemático com doentes que, no seu dizer - "nunca se curam " e que no dia seguinte -"Já lá não estão", gera a terrível sensação - "de estar a fazer um trabalho inútil ", porque o que fazem ao doente- "já não vai adiantar nada"; — e ainda o lamento de - "não temos ninguém com quem possamos desabafar estas angústias". Foi a constatação dessas realidades que nos levou a uma primeira abordagem do tema e consequentemente à leitura de alguns textos, que indicam a maneira como esses problemas têm sido vistos e tratados noutros países. Mas, a exiguidade do tempo e a natureza do trabalho que nos era exigido, não nos permitiu, nessa ocasião, desenvolver o tema com a profundidade que desejaríamos. Contudo ficou-nos sempre uma vontade muito grande de o fazer um dia: "On peut dire que l'apprentissage se ramène à l’énoncé d’un projet et à choix de situations permettant de réaliser le projet en question." (Berbaum,1988) Assim, graças à frequência deste Mestrado, surge-nos, de novo, oportunidade de voltar ao tema e estudar duma maneira mais aprofundada esta problemática. O que se justifica, a nosso ver, porque nada ou muito pouco mudou ainda: Como não há entre nós uma política de cuidados paliativos, estes doentes, nos nossos hospitais, continuam a ser como que um pesadelo para os técnicos de saúde dado que acreditam: já não haver nada a fazer; como tal não se sabe muito bem o que se lhes há-de fazer; — Não há equipas constituídas especificamente para esta tarefa; — Os elementos das equipas continuam a não ter formação pré-graduada, nesta área; — Não há um suporte psicológico destinado ao doente, à família e aos técnicos; — Não existem trabalhos de investigação, ou existem muito poucos, que mostrem e esclareçam estas realidades. São estas as razões que nos levam a retomar o antigo projecto, a voltar a esta problemática, com a intenção de levantar os problemas e, sobretudo, de criar um instrumento de trabalho que nos permita fazer formação e assim intervir dentro duma área tão carenciada. No início, tínhamos um projecto muito mais alargado: fazer a investigação sobre este triângulo relacional: doente, família e equipa, que, por certo, nos daria um conhecimento mais amplo do tema. Limitações humanas - estamos no primeiro degrau da difícil escada da investigação - aconselharam-nos a restringir o objecto de estudo, delimitando-o de forma a que lhe correspondesse uma metodologia de pesquisa coerente. Assim, no âmbito da dissertação, precisámos e circunscrevemos o objecto de estudo ao levantamento de alguns problemas que se colocam às equipas terapêuticas perante o doente terminal, tal como eles são expressos verbalmente (através de entrevistas) pelos profissionais de saúde (enfermeiros e médicos) mais implicados nesta problemática. (...)
Tese de Mestrado em Ciências da Educação (Pedagogia da Saúde) apresentada à Universidade de Lisboa através da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, 1993
Teses de mestrado - 1993, Formação, Domínio/Área científica::Ciências Sociais::Ciências da Educação, Técnicos de saúde, Educação - Investigação, Morte, Cuidados de saúde, Doentes terminais, Luto
Teses de mestrado - 1993, Formação, Domínio/Área científica::Ciências Sociais::Ciências da Educação, Técnicos de saúde, Educação - Investigação, Morte, Cuidados de saúde, Doentes terminais, Luto
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