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A presente investigação tem como objetivo nuclear analisar o impacto da arte dos novos media na autonomia da curadoria. Propõe-se a Tese de que tais obras de arte se tratam de hiperobjetos que problematizam e reconfiguram o contexto expositivo e museológico, uma vez que escapam e rejeitam as categorias da Estética, exigem novos modelos expositivos e inauguram dinâmicas inéditas de participação. Inviabilizam o controlo absoluto por parte quer do curador, quer da instituição e do próprio artista, impondo a reestruturação do sistema hierárquico institucional. Sugerem, inclusivamente, um novo museu. Perante este enquadramento, identifica-se e declara-se, doravante, uma nova etapa de crise na esfera da arte. Com efeito, para além das reformas e dos obstáculos já anteriormente decorridos na arte, a estrutura, o sistema e a hierarquia desta vêm-se destabilizados e fragilizados pelo hiperobjeto artístico, nomeadamente na medida em que este altera as relações entre obra, artista, espectador, curador e museu. Emerge um artista curador, criador de situações dinâmicas e relacionais, e um espectador decisor e coprodutor. Ao mesmo tempo, reforça-se a diluição de dicotomias e princípios modernos sugerindo um novo que não se define pelo progresso, mas pela pós produção e pela metamorfose. Conduz-se, ainda, ao debate da “imaterialidade” da obra de arte, e, no seu seguimento, à recusa da classificação dos objetos dos novos media enquanto imateriais. Neste âmbito, a investigação sustenta-se em teoria da Estética, sobretudo em Hegel, na viragem tecnológica anunciada por Walter Benjamin, na Estética Relacional de Nicolas Bourriaud e na redefinição dos objetos a partir do conceito “hiperobjeto” de Timothy Morton. Estudam-se, igualmente, a obra de Marcel Duchamp, as transformações na arte desde os anos 1960, e, especialmente, a década de 1990, na qual se situa o eclodir da tecnologia digital no contexto artístico e institucional, período durante o qual se testemunhou a transição para uma criação artística menos “objetual”, mais híbrida, participativa e interativa. Assim se atravessa da obra modernista à hiperobjetual. É também a partir daqui que se permite identificar e avaliar de que formas se manifesta e atua a hiperobjetualidade no campo artístico, principalmente ao nível da sua interferência na curadoria e na exposição, nesta última, sublinhe-se, tanto enquanto espaço como obra de arte. Constata-se que os hiperobjetos são instáveis e desenham-se caso a caso, razão pela qual impedem o estabelecimento de um conjunto de modelos expositivos continuamente aplicáveis. Pelo contrário, requerem soluções individuais e propícias a sucessivas reformulações e renegociações. Assim sendo, apontam-se, para análise e estudo de caso, exemplos de formatos, eles mesmos flexíveis, móveis, adaptáveis, híbridos e híper, que representem e respondam aos desafios impostos pelos novos media à curadoria. O primeiro, e a partir do qual se aprofunda o debate da (i)materialidade, será a exposição Les Immatériaux (1985, Centre Georges Pompidou), concebida por Jean-François Lyotard e Thierry Chaput. O segundo caso, a obra Immaterial Display (2021), discutida mediante o contexto da exposição itinerante Matter, Non-Matter, Anti-Matter (2021-2023) e do projeto Beyond Matter – Cultural Heritage on the Verge of Virtual Reality (2020-2023), iniciados pelo Zentrum fur Kunst und Medien Karlsruhe (ZKM). A peça em causa consiste num paradigma de novas modalidades curatoriais, expositivas, receptivas e experienciais, bem como num exemplar de hiperobjeto. Daí se avança com a proposta de um novo museu, o hipermuseu. Immaterial Display, mas também Les Immatériaux e várias ações do projeto Beyond Matter, realizam-se e projetam-se, com efeito, para lá da matéria, consolidando-se, assim, enquanto eventos da expressão e da concretização do tecnológico no campo artístico. É neste quadro que este estudo se inscreve e no qual pretende, de certo modo, constituir um manifesto da condição digital, virtual e hiperobjetual da arte. Atenta-se a demonstrar que a arte, enquanto campo no qual se inclui a curadoria, a par dos restantes domínios humanos, encontram na tecnologia o seu mediador e o seu vínculo a tudo o que, no mundo, os excede. Palavras-chave: arte dos novos media; hiperobjeto; curadoria; tecnologia; digital; virtual; museu; espectador
Orientação: José Bragança de Miranda; coorientação: Manuel Bogalheiro
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