
doi: 10.62530/e026012
Contextualização: A presença de fármacos antineoplásicos no ambiente evidencia um paradoxo da medicina contemporânea: substâncias terapêuticas, após excreção, tornam-se micropoluentes persistentes e potencialmente ecotóxicos, inserindo-se nos sistemas de esgotamento sanitário, que não foram projetados para sua remoção. Problema: Há uma dissociação entre o modelo de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde, centrado em resíduos sólidos, e a gestão de efluentes líquidos contendo micropoluentes farmacológicos, cuja destinação é transferida ao sistema de saneamento sem adequada capacidade técnica. Objetivos: Analisar criticamente a adequação do modelo brasileiro de gerenciamento de resíduos de serviços de saúde e de saneamento frente aos micropoluentes antineoplásicos, com ênfase na Baixada Santista. Especificamente, busca-se descrever o comportamento ambiental desses fármacos, examinar o arcabouço normativo (com destaque para a RDC nº 222/2018) e discutir a capacidade dos sistemas regionais por inferência indireta. Métodos: Pesquisa qualitativa, exploratória, baseada em revisão narrativa da literatura científica e análise documental de normas sanitárias e ambientais, no período de 2005 a 2025, com abordagem sistêmica. Resultados: Os antineoplásicos apresentam baixa biodegradabilidade, persistência ambiental e toxicidade, sendo detectados em corpos hídricos mesmo após tratamento de esgoto. A RDC nº 222/2018, embora reconheça seu risco, permite o lançamento de excretas em redes sanitárias. Na Baixada Santista, evidências indiretas indicam insuficiência dos sistemas de tratamento para remoção desses compostos. Há traços de ilegalidade e inconstitucionalidade na transferência de responsabilidade. Conclusões: O modelo vigente mostra-se insuficiente para enfrentar os micropoluentes farmacológicos, evidenciando uma lacuna entre regulação, tecnologia e realidade ambiental, o que demanda integração entre políticas de saúde, saneamento e meio ambiente.
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