
doi: 10.58043/rphrc.76
Introdução: O novo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2) utiliza a enzima conversora da angiotensina 2 (ECA 2) para entrar nas células. Teoriza-se que os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (IECAs) e os antagonistas dos recetores da angiotensina II (ARAs II) possam aumentar a expressão desta enzima, levantando a hipótese destes fármacos aumentarem a suscetibilidade à coronavirus disease 2019 (COVID-19) e se associarem a um pior prognóstico desta doença. Contudo, estudos subsequentes mostram efeitos neutros destes fármacos e outros até benéficos, tornando-se essencial mais investigação para apurar o real impacto destas classes de fármacos na apresentação, curso e prognóstico da COVID-19. Objetivo: Nos doentes internados por COVID-19, analisar as diferenças entre o grupo de doentes que realizava IECAs ou ARAs II (gIECA/ARA) e o grupo que não realizava estes fármacos (gNãoIECA/ARA), quanto a características demográficas, prevalência de comorbilidades, presença de sintomas mais frequentes de COVID-19, alterações analíticas, gasométricas e radiológicas, sobreinfeção bacteriana, necessidade de internamento em unidade de cuidados intensivos, duração do internamento e mortalidade. Material e Métodos: Estudo retrospetivo dos doentes internados por COVID-19, no Centro Hospitalar Tondela-Viseu, de 15 de Março a 18 de Maio de 2020, com recurso aos dados dos processos clínicos do Sclínico e ALERT® e análise estatística através do programa SPSS®. Resultados: Dos 89 doentes incluídos no estudo, 38.20% eram mulheres. A idade média dos doentes foi de 73.26 ± 16.26 anos. Cinquenta e cinco por cento eram hipertensos e 33.71% dos doentes da amostra estavam sob IECAs ou ARAs II. A média de idades foi idêntica nos dois grupos (77.93 ± 10.40 no gIECA/ARA vs 70.88 ± 18.17 anos no gNãoIECA/ARA, p=0.264); 46.67% eram mulheres no gIECA/ ARA e 33.90% no gNãoIECA/ARA (p=0.241). A prevalência de diabetes mellitus (DM) foi superior no gIECA/ARA (43.33 vs 22.03%, p=0.037), assim como a insuficiência cardíaca (IC) (36.67% vs 27.12%, p=0.354). A dispneia foi mais frequente no gIECA/ ARA (56.67 vs 54.24%, p=0.828), mas não a tosse, nem a febre (46.67 vs 50.85%, p=0.709 e 40.00 vs 54.24%, p=0.204). Não se verificaram diferenças significativas nos parâmetros analíticos e gasométricos, no serviço de urgência, entre o gIECA/ARA e gNãoIECA/ ARA, nomeadamente no valor médio de leucócitos (respetivamente, 11.73 vs 9.03 x 109/L, p=0.186), neutrófilos (8.56 vs 6.63 x 109/L, p=0.112), linfócitos (1.16 vs 1.21 x 109/L, p=0.714), plaquetas (212.59 vs 209.69 x 109/L, p=0.881), proteína C reativa (6.69 vs 8.48 mg/dL, p=0.247), procalcitonina (1.12 vs 3.73 ng/mL, p=0.472), pH do sangue arterial (7.44 vs 7.45, p=0.820), lactatos (1.85 vs 1.43 mmol/L, p=0.172) e a razão PaO2/FiO2 (248.02 vs 271.70, p=0.228). A percentagem de doentes com evidência de pneumonia na radiografia do tórax foi idêntica nos dois grupos (50.00 vs 64.41%, p=0.191), assim como a percentagem de doentes que iniciaram antibioterapia por suspeita de sobreinfeção bacteriana (60.00 vs 67.80%, p=0.466). Necessitaram de cuidados intensivos 13.33% dos doentes do gIECA/ARA e 10.17% do gNãoIECA/ARA (p=0.728). A média da duração do internamento foi ligeiramente superior no gIECA/ARA (20.13 vs 15.75 dias, p=0.246), mas a mortalidade foi inferior (10.00 vs 16.95%, p=0.530). Conclusões: Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos quanto a idade e distribuição de géneros. Como expectável, no gIECA/ARA foram mais prevalentes comorbilidades como a DM e a IC. Por outro lado, também não se observaram diferenças com significância estatística entre os dois grupos quanto a sintomatologia da COVID-19, alterações analíticas, gasométricas e radiológicas, presença de pneumonia, suspeita de sobreinfeção, necessidade de internamento em unidade de cuidados intensivos, duração do internamento e mortalidade. Assim, apesar do alarme inicial quanto aos possíveis efeitos prejudiciais dos IECAs e ARAs II na COVID-19, estudos posteriores não confirmaram esta hipótese. O presente estudo, ao não encontrar diferenças significativas no que se refere à apresentação, curso e prognóstico da doença entre doentes sob IECAs e ARAs II e doentes que não realizavam estes fármacos, vai também de encontro às recomendações de várias sociedades da área da hipertensão arterial, que defendem a manutenção desta terapêutica em doentes com COVID-19.
Revista Portuguesa de Hipertensão e Risco Cardiovascular, N.º 94 (2023): Março / Abril
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