
doi: 10.22482/dspace/830
Uma das espécies de serpentes peçonhentas de interesse médico no Brasil é a Crotalus durissus terrificus. Seus componentes incluem a crotamina, girotoxina, crotoxina, convulxina e fosfolipase A2. Em conjunto são responsáveis pelas ações neurotóxica, miotóxica e coagulante e têm sido estudadas em diferentes modelos experimentais, quando isoladas, para compreender o seu papel como constituinte do veneno. A crotamina nem sempre é expressa no veneno, mas quando presente, representa cerca de 10 a 25% do seu peso seco. Uma das preocupações é que o antiveneno crotálico é produzido por um pool de venenos de serpentes das espécies Crotalus durissus ssp, que nem sempre expressam a crotamina. O objetivo foi avaliar, através de microscopia de luz, a eficácia do antiveneno (AV) crotálico em lesões das células musculares induzidas por veneno de C. d. terrificus em duas condições: com crotamina (Vcrot+) e sem crotamina (Vcrot-). O delineamento foi in vitro utilizando-se a análise histológica das preparações neuromusculares, resultantes de diferentes tratamentos farmacológicos do projeto aprovado CEUA 201/2021, a saber: 1) controle Tyrode; 2) Vcrot+; 3) Vcrot-; modelo pré-incubação de ambos os venenos isoladamente com antiveneno: 4) Vcrot+:AV e 5) Vcrot-:AV; modelo pós-veneno de ambos os venenos isoladamente seguidos de adição de AV, em diferentes tempos: 6) Vcrot+→AV (10’, 30’, 60’) e 7) Vcrot-→AV (10’, 30’, 60’). Preparações controles lesionaram 42,2 % ± 2,6 das células. A presença da crotamina em Vcrot+ causou lesões das células musculares de 95,2 % ± 1,8; em Vcrot- foi de 89,6 % ± 2,3 (p<0,05 comparado ao controle). No modelo de pré-incubação o AV reduziu significativamente as lesões para 74,1 % ± 3,8 em Vcrot+:AV e 71,9 % ± 4,5 em Vcrot-:AV. No modelo pós-veneno com Vcrot+ → 10’, 30’ e 60’ os resultados foram índice de miotoxicidade (IM) 98,0 % ± 0,1; 84,8 % ± 0,1 e 85,6 % ± 0,1, respectivamente. Enquanto para Vcrot- → 10’, 30’ e 60’ os resultados foram IM 84,7 % ± 0,1; 83,6 % ± 0,01 e 91,9 % ± 0,09. Conclui-se que o AV neutraliza maior quantidade de constituintes presentes nos venenos em modelo de pré-incubação; enquanto no modelo pós-veneno o AV não foi capaz de atenuar os efeitos miotóxicos de ambos os venenos, os quais ainda se destacam que com Vcrot+ a adição de AV aos 10´ teve o pior desfecho pois não conseguiu diminuir lesões do tipo edema, célula ghost e necrose, enquanto com Vcrot- a adição de AV aos 60’ foi o pior desfecho pois o AV mostrou-se inábil em preservar células normais, evidenciando inúmeras lesões como célula ghost, edema, vacúolos e necrose. A caracterização do tipo de lesão nos dois modelos, mesmo na presença de AV, contribui para a compreensão da fisiopatologia do envenenamento pelo parâmetro ex vivo, na abordagem histológica. Conclui-se a não existência de diferenças significativas entre os venenos crotamina-positivo e crotamina-negativo nos modelos de préincubação e pós-veneno analisados. Entretanto, o Antiveneno protege de forma significativa os danos celulares causados por ambos os venenos no modelo de pré-incubação, sendo ineficaz no modelo pós-veneno.
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