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A participação de estudantes autistas na produção de conhecimento

Authors: Carolina Carvalho Sena;

A participação de estudantes autistas na produção de conhecimento

Abstract

1 INTRODUÇÃO O presente trabalho expõe conteúdo examinado em tese de doutorado, ainda em andamento, no Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), sob orientação da Profa. Dra. Sônia Elisa Caregnato. A análise envolve os processos comunicacionais de estudantes autistas no contexto da Universidade, aprofundando o tema Acessibilidade Comunicacional para o pleno desenvolvimento da Competência em Informação (CoInfo). Esse estudo perpassa pela reavaliação dos processos de aprendizagem-ensino ao considerar a Educação Aberta como alternativa para maior oferta de equidade nesse âmbito. Em decorrência dos avanços na área médica e, consequentemente, maior preparo para reconhecer e diagnosticar o Transtorno do Espectro Autista (TEA), atualmente consta que esses indivíduos correspondem a 1.2% da população brasileira (IBGE, 2025). Ademais, a gama de legislação que ampara as pessoas com deficiência é vasta e estende-se, para os devidos fins legais, para condições que proporcionem prejuízos no desempenho de atividades cotidianas, como é o caso do TEA. Para que alguém seja diagnosticado com esse transtorno, deve envolver em seu perfil sintomático as dificuldades de comunicação e interação social, e os comportamentos restritos e repetitivos (DSM-5, 2013). Como uma divisão pedagógica, categoriza-se o TEA sob três níveis, que variam de um nível mais “leve” (nível 1) para um mais “severo” (nível 3), de acordo com o suporte necessário para que aquele indivíduo desempenhe suas atividades diárias. Além disso, o ambiente frequentado pela pessoa autista afeta diretamente seus comportamentos e desempenho de habilidades, sendo possível que ela transite pelos níveis de suporte em função do ambiente e da habilidade a ser desenvolvida. Na seara dos marcos legais que envolvem o TEA, menciona-se na área da Educação, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva - PNEEPEI (Brasil, 2008), que determina, entre outros pontos, que deve existir acessibilidade nas comunicações e nos sistemas de informação. Também, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), implementada em 2016 pela Organização das Nações Unidas (ONU), preconiza, entre outros aspectos, a equidade de acesso, permanência e êxito em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino para diversos grupos, como as pessoas com deficiência, além de haver infraestrutura escolar adequada e acessível, garantindo ambientes de aprendizagem inclusivos (IPEA, 2019). Sabe-se que as ações afirmativas de acesso à universidade têm contribuído para o aumento de matrículas de estudantes autistas nesse nível de ensino (Lima et al., 2023). No último Censo Demográfico, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2025) constatou que, em 2022, 0,8% da população autista estavam frequentando o ensino superior. Por outro lado, a partir de revisão bibliográfica, constatou-se que isso não significa necessariamente que esses estudantes tenham concluído sua formação, pois são necessárias adaptações (nem sempre presentes) que reflitam verdadeiramente a inclusão, considerando a existência de diferentes perfis sociais, motores, cognitivos e sensoriais (Lima et al., 2023). Desse modo, tendo em vista que diversos estudantes autistas identificam discrepância entre a realidade e o determinado pelos dispositivos legais (Castro; Almeida, 2014), o objetivo da presente pesquisa constitui-se em contribuir para a integração da legislação inerente às pessoas autistas com a prática na Universidade, ampliando o diálogo entre ambas e corroborando para o exercício pleno de construção de conhecimento por parte desse grupo. Este trabalho volta-se, então, para as práticas de educação e comunicação direcionadas para os estudantes universitários diagnosticados com TEA, público que segue ocupando cada vez mais esses espaços e que demanda por adaptações especialmente no campo da comunicação, um dos déficits envolvidos em seu diagnóstico. Nos dias de hoje, não há como desconsiderar o quanto a desordem informacional afeta a sociedade, o que necessariamente demanda pelo desenvolvimento de habilidades para a criação, comunicação e controle da informação. Ademais, mesmo com o desenvolvimento de pesquisas científicas ocorrendo na contramão da desinformação, ainda há aqueles acadêmicos que discordam da importância de compartilhar o andamento de seus estudos, assim como seus resultados. Em resposta a essas negativas, através da Ciência Aberta, busca-se promover o engajamento da ciência com a sociedade, com a redução ou ausência de restrições no acesso aos dados de pesquisa, promovendo a transparência, colaboração entre cientistas e inovação. Como um de seus pilares, destaca-se a Ciência Cidadã (Fava, 2024), que pressupõe a participação da sociedade na geração de conhecimento científico, engajando o público não acadêmico nas etapas da pesquisa científica e, assim, democratizando o conhecimento produzido. A Educação Aberta também ecoa esses princípios através de um conjunto de práticas que propõem aumentar o acesso ao conhecimento e à educação para diferentes públicos, promovendo a inclusão e a equidade, repensando os processos de construção do conhecimento e adaptando conteúdos educacionais. Sob a ótica desse composto de práticas e métodos, o professor assume um papel de orientador, não constituindo-se mais no ponto central do processo de ensino-aprendizagem, lugar ocupado pelo aluno sob essa concepção. Outro ponto de destaque da Educação Aberta é a aplicação de avaliação diagnóstica, que irá guiar a instrução acadêmica de acordo com as especificidades de cada estudante (Santana; Rossini; Pretto, 2012). O conceito de Educação Inclusiva também se destaca nesse contexto de práticas de “sala de aula”. Por meio dessa abordagem, universaliza-se o acesso à educação para todos os estudantes em todos os níveis educacionais, promovendo a equidade (Santana; Rossini; Pretto, 2012). Cabe aqui ressaltar que equidade é um conceito mais abrangente que igualdade, pois significa dar a cada indivíduo as ferramentas que ele precisa de acordo com suas especificidades para que tenha acesso às mesmas oportunidades que a população em geral, e não apenas que sejam oferecidas essas mesmas oportunidades sem as adaptações necessárias. A CoInfo constitui-se em premissa básica para esse contexto, estando estreitamente vinculada à cidadania participativa (Melo, Araújo, 2007), uma vez que fornece aparato crítico para que os cidadãos atuem ativamente na formulação de políticas públicas e gestão dos recursos públicos. Assim, é fundamental o desenvolvimento da CoInfo, com o aprimoramento de habilidades informacionais que permitam que cada pessoa saiba encontrar uma informação e julgá-la quanto a sua necessidade real, além de poder avaliá-la e usá-la para a resolução de um objetivo (Saunders, 2024). Sendo assim, aquele competente em informação possuirá olhar crítico quanto à realidade que o cerca, sendo capaz de compreender como as diversas informações atuam sobre sua vida. Mais ainda, na atual conjuntura de frequentes avanços das mídias digitais, amplia-se essa concepção para a competência midiática (CM), que envolve as diversas maneiras existentes para acessar, analisar, avaliar e criar conteúdo, utilizando a gama de meios disponíveis (Dudziak, 2010), considerando também questões relativas à motivação para a disseminação de dada informação. Defende-se que essas habilidades devem ser aprimoradas especialmente no ambiente de Ensino Superior, uma vez que são espaços de questionamento crítico e desenvolvimento intelectual (Cope, 2010), mas que, em contrapartida, ainda apresentam diferenças relativas às questões de acessibilidade, sobretudo sob o aspecto comunicacional. Ou seja, aqui refere-se às atividades inerentes à equidade no processo comunicacional, independente de especificidades motoras e/ou cognitivas de cada pessoa (Duarte; Morais, 2021). Retoma-se aqui que as pessoas autistas possuem em sua sintomatologia questões cognitivas e déficits comunicacionais. Como dito anteriormente, é possível que o indivíduo transite pelo espectro autista e, por esse motivo, pode manifestar-se de maneiras completamente diversas entre os diagnosticados e de acordo com o ambiente em que estão inseridos, o que reflete também em seus processos de aprendizagem. Portanto, essas práticas devem passar por adaptações que considerem as especificidades apresentadas por cada estudante, especialmente no que diz respeito aos aspectos comunicacionais no ensino superior. Entretanto, apesar das pesquisas na área da Ciência da Informação em relação ao TEA estarem mais frequentes, esse fato não é necessariamente acompanhado pela mitigação das barreiras encontradas por esses estudantes, acarretando por vezes no abandono do curso face às dificuldades encontradas durante sua jornada acadêmica. Além disso, ainda é pequeno o número dessas análises no Brasil, e há estudos que afirmam que a maioria das investigações sobre autistas nas universidades tendem a abordar a visão das pessoas com quem convivem, como familiares e terapeutas. Por outro lado, sob a ótica da Educação Aberta, ao serem flexibilizadas as práticas de ensino, centrando-se a aprendizagem em cada aluno, suas particularidades e suas contribuições (previamente avaliadas), e valorizando-se a produção de conhecimento sobre o tema por parte das pessoas autistas, entende-se que será possível mitigar as barreiras mencionadas. 2 METODOLOGIA Em um primeiro momento, foi realizada revisão bibliográfica sobre temas como TEA e Acessibilidade Comunicacional e já se planejava, em segunda etapa, realizar entrevistas com a equipe do Núcleo de Inclusão e Acessibilidade da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (INCLUIR/UFRGS) e os discentes atendidos por este setor, assim como do coletivo de alunos inserido na Universidade. Justamente após algumas leituras, confirmou-se o valor existente nessas entrevistas, pois alguns autores identificaram em seus estudos que raramente são ouvidas diretamente as pessoas autistas, preferindo-se contar com os relatos de quem os acompanham, como familiares e/ou terapeutas. Em complemento, também foi percebida tendência em retratar outras deficiências que não as ocultas, como o TEA, e suas respectivas adaptações, que fogem do tradicionalmente observado (Caron; Mombellib, 2023; Hinson-Williams, 2024; Shea; Derry, 2022). Entende-se, assim, que as entrevistas permitem a aproximação à realidade, fornecendo ferramental para a aplicação da teoria às vivências. Dessa forma, distancia-se de possíveis distorções, uma vez que poderá alcançar-se visão geral e aprofundada do tema, esclarecendo hipóteses formuladas com a revisão bibliográfica (Gil, 2008). Sendo assim, pretende-se dar continuidade ao conteúdo teórico expresso no projeto de pesquisa, exercendo atividades práticas de contato direto com seu público-alvo. Assim, dando-lhes o papel de protagonistas dessa investigação e analisando a aplicação da Educação Aberta em seu contexto acadêmico, ou a possibilidade de adaptações inspiradas em suas premissas. 3 RESULTADOS DA PESQUISA Essa pesquisa, em nível de doutorado, encontra-se em fase de observação e revisão bibliográfica, além de acompanhamento de eventos da área. Após a etapa de qualificação da tese e submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP/UFRGS), almeja-se realizar as entrevistas mencionadas na seção Metodologia. Até o momento, constatou-se que o Brasil carece de estudos aprofundados sobre o desenvolvimento acadêmico das pessoas autistas em nível universitário, sob o aspecto comunicacional, pois comumente restringem-se ao ambiente das bibliotecas ou generalizam para todas as deficiências, não focando no TEA. Além disso, como supracitado, a tendência é que os pesquisadores prefiram os relatos daqueles que acompanham as pessoas autistas, em detrimento da sua ótica. Também é importante mencionar que se observou que, além da população autista estar crescendo no Brasil, o número de universitários deste grupo também segue aumentando. Entretanto, a quantidade de concluintes nem sempre é diretamente proporcional. E, ao contrário do que o senso comum pode inferir, esse fato não se deve à capacidade cognitiva desses estudantes, mas sim à permanência de barreiras, inclusive atitudinais, que afeta diretamente a oferta equitativa de aspectos comunicacionais para que demonstrem e aprimorem suas habilidades e conhecimentos. Como proposta de universalização do acesso à educação para todos os estudantes universitários, recorre-se ao preconizado pelas práticas de Educação Aberta, como forma de promoção efetiva da equidade. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta tese em desenvolvimento concebe que a universidade se constitui em um espaço de desenvolvimento intelectual e afirmação de direitos. O presente trabalho possui caráter inovador, uma vez que tem olhar voltado especificamente ao público TEA, buscando através da análise de cada vivência exposta nas entrevistas, refletir a individualidade de cada um na proposição de estratégias de adaptação comunicacional. Além disso, acredita-se que o fato de respeitar seus próprios relatos oferecerá ótica diversa do comumente difundido. Ressalta-se, também, que a análise extrapola o ambiente das bibliotecas universitárias, possibilitando que demandas diversas na vivência comunicacional desses estudantes sejam observadas. Ademais, pretende contribuir especialmente para a mitigação das barreiras comunicacionais, sobrepujando o recorrente foco nas adaptações tradicionais, como as arquitetônicas. Entende-se que, a partir do caso ambientado na UFRGS, será possível que o conhecimento obtido seja disseminado e aplicado em contextos semelhantes. Logo, é fundamental que sejam reconhecidas as dificuldades enfrentadas pelas pessoas autistas em seus processos comunicacionais na universidade, assim como a valorização de suas habilidades, permitindo que contribuam para a construção do conhecimento. Tendo isso posto, acredita-se que através do olhar da Educação Aberta, os universitários autistas terão acesso a uma educação mais inclusiva, contando com avaliação e implementação das adaptações que se fizerem necessárias para que tenham acesso aos dispositivos de educação e comunicação, desenvolvendo de maneira equitativa suas atividades de produção de conhecimento.

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