Richard Francis Burton e a inserÃÃo do kama-sutras como um manual sexual entre os vitorianos (Inglaterra, 1883)

Master thesis Portuguese OPEN
Felipe Salvador Weissheimer (2014)
  • Publisher: Universidade Estadual do Oeste do Parana
  • Subject: kama-sutras | Richard Francis Burton | Inglaterra vitoriana | sexualidade | gÃnero | victorian England | sexuality | gender. | HISTORIA

Dentre os vÃrios âKama-sutrasâ difundidos no mercado, a versÃo clÃssica foi escrita por Vatsyayana (sÃculo I-IV, aproximadamente) e publicada na Inglaterra em 1883 pela Sociedade Hindu Kama-Shastra. Richard Francis Burton foi o membro de maior importÃncia na Sociedade Hindu Kama-Shastra, pois, alÃm de fomentar a publicaÃÃo, auxiliou na traduÃÃo, editou e enunciou vÃrios comentÃrios ao longo da obra. Em seus comentÃrios, percebemos que o projeto da traduÃÃo e publicaÃÃo do Kama-sutras visava em especial à instituiÃÃo de ânovasâ prÃticas sexuais aos seus contemporÃneos. Para ele, importava nÃo apenas âconhecer o outroâ, mas âaprender com o outroâ, e o discurso de Vatsyayana foi constituÃdo por ele neste âmanual de aprendizagemâ. A partir do Kama-sutras, Burton imaginou um âOriente exÃticoâ, portador de conhecimentos sexuais e erÃticos. Este âOriente exÃticoâ do tradutor-comentador criou um efeito discursivo de considerÃvel estÃmulo sobre as disposiÃÃes afetivas dos leitores, fato que reforÃou sua aÃÃo ideolÃgica de transformaÃÃo das prÃticas erÃticas e sexuais dos vitorianos. Burton achava que o Kama-sutras era importante para os ingleses, pois continha âmuitas coisas novas e interessantes sobre a uniÃo dos sexosâ. AlÃm disso, observava que a ignorÃncia acerca do âsexoâ levava o homem inglÃs a nÃo desfrutar totalmente dos prazeres matrimoniais, alÃm de nÃo satisfazer plenamente os desejos sexuais de sua esposa. Assim, percebemos que havia um sentido imanente ao discurso de Burton sobre o passado indiano, no qual o tradutor-comentador buscou pela pretensÃo de se alcanÃar a âverdadeâ sobre o passado indiano, atingir a realidade inglesa do final do sÃculo XIX. Nas anÃlises dos relatos dos envolvidos na traduÃÃo e publicaÃÃo do Kama-sutras, constatamos, por exemplo, a existÃncia de interdiÃÃes legais, tais como as promulgadas pela Lei de PublicaÃÃes Obscenas de 1857, que regulavam as publicaÃÃes de cunho erÃtico e sexual. AlÃm disso, a partir de uma revisÃo historiogrÃfica e tomando os relatos dos envolvidos na produÃÃo do Kama-sutras como fonte, constatamos que os conflitos entre os produtores do Kama-sutras e os âguardiÃesâ da castidade (que combatiam as ditas âpublicaÃÃes obscenasâ) se deram, sobretudo, no seio da classe burguesa, mesmo nÃo sendo um conflito exclusivamente burguÃs. Neste sentido, buscamos analisar (nÃo somente a traduÃÃo inglesa do Kama-sutras, mas, tambÃm, outros textos que estiveram no emaranhado de relaÃÃes interdiscursivas), as representaÃÃes, intervenÃÃes e disciplinas, construÃdas social e culturalmente na Inglaterra do final do sÃculo XIX, que incidiram sobre os corpos e sobre as identidades dos sujeitos daquele contexto Amongst the various Kama-sutras published in the market, the classical version was written by Vatsyayana (I-IV centuries, approximately) and published in England in 1883 by the Kama-Shastra Hindu Society. Richard Francis Burton was the member with most importance in the Kama-Shastra Hindu Society, given that he not only fomented the publication, but also helped with the translation, edited and uttered several comments during the work. In his comments, we can notice how the project of translation and publication of the Kama-sutras pointed specially towards the institution of ânewâ sexual practices to his contemporaries. For him, mattered not only âto know the otherâ, but also âto learn with the otherâ, and the discourse of Vatsyayana was built by him in this âlearning manualâ. From the Kama-sutras, Burton imagined an exotic âEastâ, carrier of sexual and erotic knowledge. This âimagined communityâ by the translator-commentator created a discursive effect of considerable stimulus over the affective dispositions of the readers, fact that reinforced his ideological action of Victorian erotic and sexual practices transformation. Burton thought that the Kama-sutras was important for Englishmen, for it contained âmany new and interesting things about the union of sexesâ. Moreover, he observed that the ignorance about âsexâ led Englishmen to not fully enjoy marital delights, as well as not completely satisfying the sexual desires of their wives. Thus, we notice that there was an immanent sense in the discourse of Burton about Indian past, in which the translator-commentator sought for the intent of reaching the âtruthâ about Indian past, strike English reality at the end of the 19th century. In the analysis of the extracts from those involved in the translation and publication of Kama-sutras, there can be seen, for instance, the existence of legal interdictions, such as those promulgated by the Obscene Publications Act of 1857, which regulated the publications of an erotic and sexual sort. Besides, after a historiographical review and taking the reports of those involved in the production of the Kama-sutras as a source, we have seen that the conflicts between the producers of the Kama-sutras and the âguardiansâ of chastity (who fought the so called âobscene publicationsâ) happened, above all, in the bosom of the bourgeois class, even if it was not an exclusively bourgeois conflict. In this sense, we analyze (not only the English translation of the Kama-sutra, but also other texts that were at the tangle of relationships interdiscursive), the representations, interventions and disciplines, social and culturally constructed in England in the late nineteenth century, that focused on bodies and on the identities of the Victorians
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